CONTO
D. MIUDINHA
Era uma cidadezinha cheia de
histórias. Repassavam uns para os outros e, assim, seguiam um modo de viver
feliz.
As frondosas mangueiras faziam
sombras para os mais velhos como uma espécie de cobertura para, assim, novas
histórias nascerem. Os mais jovens pescavam, estudavam e sonhavam....
Chegou por ali, certa vez, uma nova
moradora. Veio para substituir a antiga inspetora do colégio. A maioria dos
moradores, ou quem sabe, todos, estudaram ali.
O tempo se encarregara de consumir
as paredes. Desgastadas, não se reconhecia o tom amarelo de outrora. Pediam uma
nova pintura. Eram apenas cinco salas de aula, pesadas carteiras de madeira e
quadro negro. O telhado já acomodava muitas plantinhas, talvez, trazidas em
sementes pelos passarinhos, quem sabe. Mas, algumas samambaias e trepadeiras
decoravam a parte mais alta do colégio dando-lhe um certo toque bucólico. Das
brechas se podia ver na estrada algum carro de boi. A antiga diretora foi
embora. Sua filha casou lá para as bandas de Minas Gerais e a chamou para morar
com ela. A professora Olinda a substituiu. Moça nova e ainda ganhando
experiência. Estudou ali também e sempre se destacou nas aulas de matemática.
Foi recepcionar a nova inspetora que
trazia consigo o documento da secretaria municipal.
- Olá, seja bem-vinda!
- Olá, obrigada.
- Seu nome é Dolores, não é isso?
- Sim, mas pode me chamar de
Miudinha... Eu até que gosto. Ela soltou uma risada que espantou o cachorrinho
Tonico que dormia ali por perto.
- Certo, D. Dolo... Quis dizer, Dona
Miudinha!
Hoje, como a senhora está
vendo, choveu e poucos alunos compareceram as aulas. Amanhã, acho que a senhora
sairá um pouco mais tarde esperando os pais virem buscar os seus filhos.
-Tudo bem.
Na tarde seguinte, já passara das 16
horas e ninguém apareceu para pegar o menino Augusto. Um tempo de chuva já se
prepara e nada de alguém aparecer. Todos já haviam ido embora.
- Meu Deus, e agora menino? Quem vem
te buscar?
- Meu nome é Augusto.
-Tá bem,
Augusto, quem te pega na escola?
- Minha mãe.
D. Miudinha enfrentou a chuva com o
menino. Passou na frente da casa dele, bateu palmas e nada. Ninguém
respondia... Como? chovendo ... Molhados, voltaram para a escola. A senhorinha
já se preparava para dormir por ali mesmo. O ramal a noite era um horror. Tinha
medo. A noite não demoraria a chegar.
Enquanto isso, na casa do Augusto.
Duas velhinhas cuidavam uma da outra.
Eram irmãs. Observam os grunhidos do cachorro tentando abrir a porta da casa
para sair.
- Esse cachorro está esquisito. Já dei
comida, água, e nada. Continua
rosnando e tentando abrir a porta. Não sei o que ele quer.
A filha foi dar um passeio com o
namorado e pediu para a mãe para buscar o Augusto na escola.
- Acho
que ele quer brincar com o’’ Gustinho’’ fala a irmã que tomava um chá de
hortelã.
- Mas cadê o Augusto?
- Ah,
deve ser isso, ele quer brincar com o menino...
- Mas,
onde ele está?
- Ai,
ai, meu Deus, acabei esquecendo de pegar o Augusto na escola e agora? Vou já
lá.
Quando ela viu a cara de Dona Miudinha
pediu mil desculpas e disse que a filha iria deixá-la em casa de charrete.
Falou ainda que foi culpa do tal Alzheimer que a filha, de vez em quando, fala
com uma cara de medo.
(Conto classificado em 10° lugar na
Revista Digital Literária Inversos junho/2019).

Parabéns minha confreira Fátima. Vc é excelente no que faz.
ResponderExcluirUm abraço do seu amigo Elizeu Melo.